OS
LIMITES DA LINGUAGEM
Uma cena do filme Apocalypto,
de Mel Gibson, chama a atenção para um fato importante
– e intrigante – da história humana: quão
fiel à realidade é a linguagem?
A obra, indicada a três Oscars, trata sobre o declínio
do império maia. Na dita cena, um índio vê as
caravelas dos espanhóis próximo à praia e,
ao ser perguntado sobre o que era aquilo, responde: “Não
sei. Trazem homens.”
O que vemos, ouvimos e sentimos tentamos expressar com palavras.
Para se comunicar, desde os primórdios, o homem atribuiu
termos às coisas, constituindo a linguagem. Existem, no planeta
hoje, dezenas de idiomas e centenas de dialetos. Há, porém,
palavras para tudo, não para todos.
O índio não sabia o que eram as caravelas, pois jamais
tinha visto tais coisas. Em sua experiência de vida, nunca
se deparara com um objeto tão grande, capaz de andar sobre
as águas. Seu vocabulário não possuía
um termo para nomeá-las, por isso disse somente que traziam
homens. E é nesse ponto onde há uma primeira limitação
da linguagem. Não existem palavras para definir o que foge
ao conhecimento.
Quando isso ocorre, buscamos os termos mais próximos em nossa
linguagem e tentamos adaptá-los. Fazemos comparações
a fim de ajustar a realidade ao nosso saber e, desse modo, maquiamos
a verdade. Transformamos o que é no que parece. Marco Polo,
famoso mercador veneziano que viajou ao oriente no século
XIII, relatou ter achado, naquelas terras, o lendário unicórnio,
animal com um único chifre. Na realidade, ele vira um rinoceronte.

Uma outra importante questão
referente à linguagem é sobre a interpretação.
Para explicá-la, partamos do seguinte exemplo: “Aquele
automóvel branco é maravilhoso”. É uma
frase, como tantas outras, montada sob um julgamento prévio
e formada de verbetes inerentes a um vocabulário. A maioria
das pessoas sabe o que é um carro. Na mente delas, essa palavra
cria a imagem de um veículo de quatro rodas que pode ser
pilotado. Contudo, se dissesse um knorr, no que pensariam? (O knorr
era um barco viking).
E por que o carro é branco? Os esquimós, que vivem
no extremo norte rodeados de gelo e neve, possuem vários
termos para a cor branca. Certamente, o automóvel chamado
dessa cor no Brasil, lá, teria outra denominação.
Um esquimó o veria com outros olhos e, naturalmente, o relato
dele seria diferente daquele que contamos sobre o carro. Nessa suposição,
nosso vocabulário é o limitado, uma vez que um termo
– branco – agrupa centenas de outros de uma cultura
alheia, a esquimó. Já na cena do filme, limitado era
o do índio.
E maravilhoso? O que é bonito para mim acaso não pode
ser feio para você. A cada elogio ou desprezo, precede o ânimo
do locutor e o conceito que tem das coisas. Para um indiano, um
carro, no máximo, pode ser belo; maravilhoso é o Taj
Mahal.
As palavras de um vocabulário são determinadas pelo
conhecimento de um povo. Esse conhecimento nada tem a ver com ser
mais ou menos evoluído. Diz respeito ao cotidiano, ao que
é comum. Um esquimó não saberia definir edredon,
mas cobertor, sim. Para um inglês, o termo “saudade”
não existe; o mais próximo, em sua língua,
é “miss”: “sentir falta”.
Direcionando para a história, chegamos a um ponto extremamente
significativo. O que os tempos nos trazem é fruto, unicamente,
da linguagem, oral e escrita. Ou seja, o que aprendemos hoje, um
dia foi escrito por alguém pertencente a uma determinada
cultura e dono de uma gama de experiência, um sacerdote, um
filósofo, um cientista. E todos eles escreveram e disseram
o que pensavam da maneira como enxergavam o mundo. Entretanto, diante
das situações do carro e das caravelas, percebemos
existir sempre limitações na linguagem. Apesar de
tentar, ela nunca é totalmente fiel ao real. Nem o pensamento
é. Somente os olhos vêem a verdade de fato.
|