Contos do Velho Oeste
por Tiago Cesar

Todos conhecem alguns contos de Velho Oeste, repletos de situações em que a honra de alguém era ferida, e da mesma forma recobrada. De saloons, donzelas, desafios, e entre tantos outros detalhes, a coragem. Essa é a história de um velho forasteiro, que passou por inúmeros lugares, conhecendo pessoas, e sendo conhecido. Seu lema é “Coragem acima de tudo”, e seu nome é Johnny “Ás” Brunson.

Johnny havia perdido o seu cavalo, roubado, e ainda não tinha ganhado seu apelido. Através da generosidade de um mercador, chegou a Blentsville sem precisar usar as próprias pernas por dias e dias. Ainda lhe restavam alguns dólares, mas não o suficiente para conseguir um novo animal de montaria. De qualquer forma, Johnny entrou em um saloon, sentou-se, pediu uma dose de whisky, e enquanto saboreava-o, preparava e acendia um cigarro de tabaco, na esperança de conseguir ao menos pernoitar na cidade. Certa hora, um homem que aparentava uns 40 anos, e parecia ter grande reputação por ali, aproximou-se de Johnny e perguntou num tom de voz agressivo:

- Quem é você forasteiro? O que veio fazer em Blentsville?

Johnny respondeu:
- Meu nome é Johnny Brunson, e estou de passagem, a fim de conseguir um cavalo para seguir viagem.

O tal homem, com um sorriso irônico, disse enquanto se afastava:
- Pensei que tivesse vindo aqui com o intuito de me desafiar. De fato não parece tão corajoso, mas ao menos mostrou sensatez.

Diante de tal menção, e em meio às risadas, Johnny tomado por um ódio súbito, virou num só gole o whisky, e bateu o copo na mesa com tamanha violência, que calou a todos, provocando certo espanto coletivo, e apontando o dedo para o homem disse:

- Agora estou aqui com o único propósito de te desafiar, no que você quiser!

Johnny já prestes a puxar a pistola sem saber bem o que esperar, notou os olhares ao redor, e pôde perceber que o seu desafio tomaria grandes proporções.

O tal homem voltou-se para Johnny e disse:
- Então forasteiro, esteja aqui dentro de três horas, e traga o seu dinheiro, mas prepare-se para perdê-lo, e sair de Blentsville a pé, e sem as calças!

- Veremos quem sairá sem as calças!
Respondeu Johnny.

Contrariado, o homem saiu do saloon como uma bala, e vagarosamente, o dono do estabelecimento se aproximou, e com os olhos tão arregalados parecendo quererem pular da cara, perguntou, meio entorpecido:

- Garoto, você tem noção do que acabou de fazer?

Johnny, em silêncio e intrigado, nada respondeu, esperando a continuação inevitável:
_ Você acabou de desafiar Foster Eliot, o maior jogador de poker de Blentsville, reconhecido por todo o Oeste!

Sem querer transparecer qualquer receio, Johnny argumentou:
_ Vamos ver se ele é tão bom assim.

Três horas depois, Johnny Brunson chegou ao saloon e já estavam sentados à mesa Foster Eliot, o banqueiro Folgorth, o homem mais rico de Blentsville, e, mascando tabaco, um velho cowboy chamado Arthur McFowler. A mesa estava formada com quatro jogadores no esquema Five Cards Draw ( Conhecido também como poker fechado. Cada jogador recebe 5 cartas e, após a rodada de apostas, podem trocar até 3 cartas cada. O Five Cards Draw é jogado, normalmente Limit, ou seja, com limite de blinds, ou apostas pré-estipuladas que não aumentam), com blinds iniciais $2-$4 Pot Limit (limite do pote), com cacife mínimo de $100.

Quando Johnny sentou-se à mesa, Eliot perguntou:
- Preparado para perder?

Johnny respondeu de imediato:
- E se eu ganhar?

Foster Eliot gargalhou, curvando-se para trás, mas Johnny conteve-se e esperou alguma resposta não tão irônica.

- Garoto, isso é praticamente impossível, mas se milagres acontecerem para você nessa noite, te dou meu melhor cavalo.
Para Johnny soou como música tal resposta.

Aquela noite de outono em um saloon de Blestsville era tudo o que restava para Johnny, era jovem e sem crédito, e depois de algumas mãos, percebeu que a sorte talvez não lhe sorrisse tão brevemente. Menos sorte do que Johnny, teve o banqueiro Folgorth, que abandonou o jogo, após perder todas as suas fichas em menos de duas horas na mesa. A partida percorreu por mais uma hora, até que McFowler saiu, ambos eliminados por Eliot, de fato muito talentoso, tight (estilo de jogador que não arrisca muito em mãos fracas, chamado também de pedra ou rocha, the rock) e agressivo nas melhores mãos. Johnny não tinha visto melhor jogo que um full-house de valetes e oitos, mas soube levar o jogo com astúcia, atacando mais os outros dois, e evitando confrontos com Eliot. No Heads up (um contra um) melhores mãos começaram a surgir para Johnny, e o jogo foi prosseguindo por mais uma hora, trazendo uma natural torcida para o seu lado, e consequentemente deixando Foster Eliot um tanto irritado e impaciente. Algumas mãos depois Eliot aumentou o pingo. Johnny olhou devagar suas cartas, e elas eram:

Qo, Ko, To, Jo, e por fim, Je. (entende-se T sendo a carta 10)

Subitamente dobrou a aposta dele, e ele dobrou novamente, deixando o pote monstruoso. Johnny pensou que talvez tivesse feito errado em subir o pote. Talvez fosse melhor somente dar call (pagar a aposta) ao invés de raise (aumentar). Ter ficado um tempo analisando esse possível erro deixou Eliot mais confiante na sua mão. Johnny não tinha o que fazer além de dar call com straight flush draw (chamada para straight flush) para as duas pontas da seqüência. Eliot pediu duas cartas. Fatalmente tinha uma trinca na mão, com possibilidades para four ou full. Isso não era nada bom para Johnny, que se perdesse, teria muito trabalho para equilibrar de novo os stacks (pilha de fichas). Johnny pediu uma carta, trocando o Je.

Antes mesmo de Johnny ver a carta, Eliot apostou todas a fichas restantes, que correspondiam a quase todo o pote. Johnny olhou a ponta de sua quinta carta e era um A. Imediatamente pagou. Eliot, mostrou Ap, Ao e Ae.

- Mais o quê?
Perguntou Johnny Brunson.

- Mais nada, por quê?!
Retrucou Eliot, receoso.

- Por nada, é que você tem o meu Ás, mas nesse caso, qualquer Ás me serve, mostrando Qo, Ko, To, Jo e o Ac.

Fim de jogo em Blentsville. Só restou a vontade de ver o royal straight flush, mas para Johnny “Ás” Brunson, isso não importou tanto, pois o jogo que ele não fez na mesa, ganhou no prêmio.

A propósito, Royal Flush era o nome do cavalo. Seu novo cavalo.

Curiosidades do poker:

O poker não é um jogo de azar, e sim um jogo de habilidade e técnica, que quanto melhor dominado, melhores são os resultados a longo prazo. Dependendo das apostas, do estilo de cada jogador, do estilo da mesa, do valor das blinds, percepção, leitura de jogo, e muitos outros itens, você pode vencer com uma mão inferior à do seu oponente, se você fizer apostas que o façam acreditar que você tem um jogo melhor que o dele.

Exemplo: No Hold”em, que é a modalidade mais praticada hoje em dia, você percebe que seu adversário vê muitos flops, mas normalmente aposta pouco, dificilmente dá raise, costuma dar mais call e limp, e dá muitas vezes fold, quando as cartas do flop parecem não o ajudar.

Você tem 27o, ou seja, um péssimo jogo, seu adversário tem A2s, uma mão muito melhor que a sua, visto q se os dois se enfrentassem num all-in, só um 7 ajudaria você, e a sua probabilidade de vencê-lo seria de 20% contra 76% contando com 3% para um empate. Se vc percebe que ele deu limp mais uma vez, enquanto você é o big blind, e sabe que ele tem grandes chances de não pagar um aumento seu, você pode aumentar pré-flop umas 3 ou 4 vezes o valor do big blind, ele muito provavelmente dará fold. Ou então após o flop, ele dá check, você percebe novamente falta de confiança, com um pequeno bet você o tira da mão. Nas duas ocasiões você interfere no resultado, e, com um jogo bem pior, você leva o pote.

Se fosse um jogo de sorte, como o bingo, por exemplo, que você torce para as suas bolinhas saírem enquanto se limita a marcá-las na cartela, sem interferir no resultado final, com essa mão, suas fichas, muito provavelmente já estariam nas mãos de outro jogador. Provavelmente, pois existe o fator sorte sim nesse jogo, mas com estudo e domínio, você, A LONGO PRAZO terá sempre resultados positivos.

“Dizem que se você sempre for o underdog, nunca terá uma história de bad-beat para contar. Prefiro continuar contando minhas histórias.” (André Kaplar – jogador de poker)

"O Brasil tem sorte? Claro, treinamos todos os dias para isso."
(Bernardinho, técnico da seleção brasileira masculina de vôlei, ao ser perguntado se a sorte está do lado do Brasil)

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