UMA VASTA PLANÍCIE VERMELHA, desabitada e com escassos pontos de orientação, rasga ao meio o território australiano. É o Outback, sertão que cobre mais da metade da Austrália e lar sagrado dos aborígines. Nele, alguns exploradores perderam suas vidas. Outros encontraram a glória.

O DERRADEIRO OUTBACK
POR ALAN SILEN KRONEMBERG

A Austrália é o que se pode chamar de uma ilha-continente, localizada no lado mais distante do hemisfério sul. Esse país, que corresponde à porção continental da Oceania, é conhecido pela sua fauna peculiar e por possuir, na sua região central, um dos maiores e mais áridos desertos do planeta.

O deserto australiano, palco do famoso filme Mad Max, constitui uma vasta planície de areia vermelha, praticamente desabitada e com escassos pontos de orientação. Os australianos o chamam de Outback. Os aborígenes, primeiro habitantes da Austrália, o têm como morada e lugar sagrado.

Na realidade, o Outback dividi-se em três: o Grande deserto de Areia, ao norte, o deserto de Gibson, no centro, e o Grande deserto Victória, no sul. Juntas, essas áreas correspondem a 4 dos 7,6 milhões de Km2 da área total da Austrália, rasgando o país quase de uma margem à outra.
No passado, essa enorme extensão de terra seca representou um obstáculo à exploração da Austrália. Muitos homens que ousaram atravessá-la padeceram diante das suas abruptas condições. O mais famoso deles, o irlandês Robert O´Hara Burke.


Robert O´Hara Burke

No verão de 1860, uma comissão decidiu enviar uma grande expedição para cruzar a Austrália do sul ao norte. Um feito, até então, inédito. Reunidos na província de Victória, os dirigentes entregaram o comando do grupo a Robert Burke, um chefe de polícia que, apesar de desconhecer técnicas de sobrevivência, possuía uma grande vontade. Burke recrutou uma equipe de exploradores e importou camelos da Índia. Em 20 de agosto, partiu com seus homens de Melbourne rumo ao sertão.

Chegando à cidade de Menindee, no interior, Burke tomou conhecimento de que outro explorador, o escocês John McDouall Stuart, deixara a Austrália do Sul com o mesmo propósito que o seu. Como não queria perder a disputa, Burke tomou uma decisão arriscada: para ganhar velocidade, reduziu à metade seu grupo. Assim, se pôs novamente em marcha com apenas seis homens diante do deserto.

A estratégia, inicialmente, deu certo. A expedição alcançou meio caminho até o rio Cooper Creek em pouco mais de três semanas, um tempo relativamente rápido. No entanto, após chegarem a esse curso, não encontraram uma rota mais segura através da imensidão seca e árida que se alastrava para o norte. Ficaram, lá, acampados por um mês até Robert decidir dividir novamente seus homens, deixando três em Cooper Creek e seguindo com o restante. William Wills, Charles Gray e John King foram os escolhidos para continuar a empreitada.

Por pouco, eles não sucumbiram à força do deserto. Graças à ajuda dos aborígines, Burke e os companheiros conseguiram alimentos e água naquele trecho da jornada, atravessando as planícies tórridas até os montes Selwyn. Tendo cruzado as montanhas, depararam-se com a estação das chuvas – no norte da Austrália, entre setembro e fevereiro, chove torrencialmente devido às monções que vêm da Índia. O ritmo deles tornou-se extremamente lento e a solução achada por Robert foi dividir o grupo pela terceira vez. Apenas ele e Wills seguiram adiante.

Em fevereiro de 1861, quase seis meses depois de deixarem Melbourne, Burke e Wills avistaram as águas do Índico. Chegaram, enfim, ao golfo da Carpentária, no extremo norte, sendo os primeiros homens a realizarem tal proeza. O explorador irlandês, porém, não tinha certeza do feito. Stuart poderia ter passado a sua frente e já estar comemorando no sul. Fora isso, a terra onde estavam era vazia, desabitada. Eles precisavam retornar.

Aos pés dos montes Selwyn, os dois reencontraram Gray e King e rumaram o mais rápido que podiam para o sul. Estavam sem provisões suficientes, no entanto. Na sofreguidão do deserto, extremamente esgotados após vários dias, alimentaram-se da carne dos cavalos para não morrerem de fome. O mais debilitado, Charles Gray, não resistiu e tombou.

Burke, Wills e King chegaram no limite de suas forças ao rio Cooper Creek. Nesse local, esperavam encontrar o restante da expedição, comida e água em abundância. Acharam somente uma mensagem numa árvore:

“CAVAR 1 M NO 21 ABR. 1861”

Curiosamente, 21 de abril era o dia em que estavam. Cavaram a terra. A meio metro de profundidade, descobriram um caixote de provisões e uma mensagem: oito horas antes, todo o grupo havia partido. Isso era desesperador. Nas condições em que estavam, jamais os alcançariam.

O povoado habitado mais próximo ficava ao sul do monte Hopeless, 240 Km pelo deserto na direção oposta à Melbourne. Parecia ser a única alternativa.

Após dois meses de marcha, Wills, sem conseguir andar, abandonou o grupo por escolha própria. Dias depois, Burke, que já estava muito fraco, faleceu.

Sozinho no sertão australiano, John King retornou em busca de Wills, mas o achou morto. Foi socorrido por aborígines, que lhe deram abrigo e o alimentaram até, dois meses depois, uma equipe de resgate aparecer.

King descobriu, mais tarde, que todos poderiam estar vivos caso Burke, ainda em Melbourne, soubesse que a expedição de Stuart já havia fracassado. O comandante, certamente, teria exigido menos de seus homens, assim como zelado mais pela sua própria vida.

Hoje em Melbourne, há uma estátua homenageando Robert Burke e William Wills. O último sobrevivente, King, foi esquecido.