MAIS
VERTICAL Por Alan Kronemberg

O GELO é um inimigo natural
dos alpinistas. A maioria das montanhas em latitudes altas da Terra
e as mais elevadas nos trópicos o possuem em abundância
como obstáculo no caminho até o cume. Por isso, desde
os primórdios do montanhismo, faces e canaletas cheias de
gelo têm sido um desafio aos escaladores, e, por bastante
tempo, as vias mais inclinadas não puderam ser vencidas.
Não existiam meios de escalá-las.
No século XIX, exploradores calçados com botas equipadas
com grandes tachas conseguiam transpor faces de gelo de até
cinqüenta graus de inclinação no Mont Blanc e
nas vizinhas Aiguilles. Isso devido ao esforço de talhar
degraus e agarras parede acima, formando uma escadaria no gelo,
com pesadas e desajustadas piquetas. Em 1908, quando o escalador
inglês Oscar Eckenstein inventou um crampom (conjunto de pontas
de aço preso por correia aos solados das botas) dotado de
10 cravos apontados para baixo, o limite de inclinação
estendeu-se um pouco mais para a vertical.
Três décadas depois, ao crampom de Eckenstein, adicionaram
um par de cravos projetados, horizontalmente, dos dedos para frente.
Nos anos 60, as piquetas ganharam dentes em suas lâminas e,
a partir de então, foi desenvolvida a técnica de front-pointing
pela qual, na época, os escaladores mais experientes subiram
encostas de até 70 graus. O front-pointing consiste
em cravar, no gelo, os dois pinos frontais do crampom juntamente
com a piqueta de uma das mãos, dispensando a necessidade
dos degraus para a ascensão.
Quando, no entanto, os alpinistas ousaram superar seus limites tentando
vencer encostas extremamente íngremes, não foi possível.
As ferramentas mostravam-se ainda inadequadas para inclinações
acima dos 70 graus: após cravar a piqueta no gelo, o escalador
puxava para cima seu peso e, não tinha jeito, ela sempre
escapava.
Yvon Chouinard, um californiano de ascendência franco-canadense
que aprendera sozinho a ser ferreiro, ganhava a vida vendendo suas
próprias peças de montanhismo. Escalador, resolveu
encontrar a solução para as piquetas e tentou fabricar
uma ferramenta capaz de lhe passar segurança no gelo vertical.
Em 1966, durante uma escalada no maciço do Mont Blanc, Chouinard
notou que todas as piquetas utilizadas haviam sido forjadas com
lâminas retas alinhadas perpendicularmente aos seus cabos.
Teve um palpite, ajudado pelo companheiro Tom Frost, engenheiro
aeronáutico. Montou uma piqueta cuja lâmina curvava-se
para baixo formando um arco menor do que 90 graus. Foi a solução.

Piquetas Chouinard-Frost
Munido de uma piqueta Chouinard-Frost
em cada mão, um alpinista podia avançar pelo gelo
mais vertical e até transpor encostas negativas. Assim, depois
de 1970, quando essa ferramenta passou a ser vendida nas lojas,
centenas de paredes consideradas intransponíveis foram superadas.
Muitas delas, pelo próprio Chouinard.
Hoje, o sessentão Chouinard comanda uma empresa de artigos
para escalada que fatura mais de 200 milhões de dólares
por ano, a Patagonia. Ele continua a escalar.

O californiano Yvon Chouinard
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