QUAL VERDADE ESCONDE a Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro? Será o túmulo de um rei fenício que, séculos atrás, viera ao Brasil com sua corte? Um portal para um mundo subterrâneo de dimensões continentais? Ou somente um imenso monolito? Há quem acredite em cada uma dessas versões e ainda atribua a essa montanha outras crenças e mitos. Quem se aventurar atrás das histórias que cercam esse símbolo da cidade maravilhosa descobrirá que a realidade pode ser muito mais imaginativa do que alcançam os sonhos dos escaladores.

O ENIGMA DA PEDRA
Por Alan Silen Kronemberg

Vistas do oceano, as montanhas do Rio se assemelham a um gigante deitado cuja cabeça é a Pedra da Gávea. Situado entre os bairros de São Conrado e da Barra da Tijuca, esse imponente monte de 842 m constitui uma das maiores elevações à beira-mar do mundo e palco de inúmeras lendas. O nome ‘gávea’ provem dos navegantes portugueses que, por considerarem-na um excelente observatório, a compararam à gávea das caravelas – o compartimento localizado no alto do mastro de onde um marujo ficava a vasculhar o horizonte em busca de terras e outras embarcações. De fato, a visão do Rio de Janeiro do topo dessa montanha é algo espetacular, considerada por muitos a melhor que se pode ter da cidade maravilhosa.
A Pedra da Gávea é um dos points dos aventureiros cariocas. Há, nela, trilhas que levam a mirantes fascinantes, cachoeiras, grutas e algumas das vias de escalada mais conhecidas da cidade. Uma delas é a travessia dos olhos, que cruza a intrigante face existente nesse monumental gigante de pedra.
O enorme rosto esculpido na vertente norte da montanha é uma formação enigmática que chama a atenção de quem levanta o olhar para o monolito. É possível ver nitidamente dois olhos, um resquício de nariz e duas orelhas saltando da rocha. Pesquisadores afirmam serem tais formações puramente obras da natureza, geradas pela erosão de milhares de anos. Contudo, muitos contestam essa hipótese por julgarem-nas perfeitas demais para terem sido esculpidas pelo vento e pela chuva. Mãos humanas seriam suas realizadoras? Mãos de fenícios?
A lenda dos fenícios construtores remonta a 856 a.C.. Segundo afirmam os historiadores, nesse ano na antiga Fenícia, um príncipe chamado Badezir tomara o lugar de seu pai, Jethbaal, no trono da cidade de Tiro. Isso é fato. Ocorre que, no cimo da Pedra da Gávea, existem inscrições relatando esse acontecimento.


Local das inscrições

Tais inscrições são objetos de estudo de pesquisadores desde os idos de 1800. Um certo frei Custódio, especialista em epigrafia, teria alertado ao rei de Portugal, D. João VI, para a sua existência e para o fato de serem anteriores ao descobrimento do Brasil. Em 1839, uma expedição do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro procurou investigá-las, mas não obteve êxito em determinar sua origem. Finalmente, em 1963, o livro de Bernardo Silva Ramos, “Inscripções e tradições da América pré-histórica”, lançou uma luz ao assunto ao apontar a possível tradução de uma frase dessas escrituras:

LAABHTEJBARRIZDABNAISINEOFRUZT

Que, lidas de trás para frente, dizem

TZUR FOENISIAN BADZIR RAB JETHBAAL

Essa frase significa Tiro, Fenícia, Badezir Primogênito de Jethbaal.

Por essa razão, alguns historiadores acreditam ser a Pedra da Gávea o local do sepultamento do príncipe fenício Badezir. Eles afirmam existirem inúmeras provas, espalhadas pelo litoral brasileiro, da chegada dos fenícios no Brasil. Entre elas, túmulos achados em Campos, em Niterói e no bairro da Tijuca, no Rio, além de ruínas de um antigo castelo numa ilha da Paraíba. A montanha carioca seria mais uma dessas provas.


Conseqüentemente, o imenso rosto esculpido na pedra só poderia ser o do monarca. Em entrevista ao jornal O Globo, há alguns anos, o, então, presidente da Associação Brasileira de Espeleologia e Pesquisas Arqueológicas, Roldão Pires Brandão, afirmou: "É uma esfinge gravada em granito pelos fenícios, a qual tem a face de um homem e o corpo de um animal deitado. A cauda deve ter caído por causa da ação do tempo. A rocha, vista de longe, tem a grandeza dos monumentos faraônicos e reproduz, em um de seus lados, a face severa de um patriarca". O mais intrigante é que, no lado da montanha voltado para o sudeste, existem marcas do que seria uma outra face semelhante à da vertente norte. Estaria, porém, inacabada.
Outra formação enigmática encontrada perto do cume da Pedra da Gávea é uma reentrância retangular de aproximadamente 15 m de altura chamada “o portal dos fenícios”. Alvo de infinitas lendas, ele seria a passagem para o mundo subterrâneo de Agarta. Os defensores dessa teoria dizem ser esse um império habitado por milhares de pessoas e a montanha, apenas uma das suas portas. As principais entradas para Agarta estariam nos pólos terrestres.
Na parte onde o monte toca o mar, de acordo com alguns mergulhadores, existe uma gruta tipo sifão, de teto abobadado e com ventilação de ar, da qual parte uma escadaria rumo ao interior da pedra. O caso mais conhecido referente a essa escadaria é o de dois rapazes que, durante uma caça submarina, encontraram a entrada para a gruta e resolveram entrar. Eles subiram os degraus da escada e, de repente, apagaram. Ao recobrarem os sentidos, estavam no topo da pedra a 842 metros de altitude.
Em 2000, geofísicos das Universidades Federal e Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ e UERJ) escalaram a montanha com um aparelho denominado GPR – sigla, em inglês, para radar de penetração no solo – a fim de realizarem testes na rocha. Não foi detectado nenhuma cavidade por trás do portal ou em qualquer lugar da Pedra da Gávea.
Esse fato, no entanto, não desanimou os que acreditam na existência de alguma caverna na montanha. Eles se defendem dizendo que o aparelho não teria sido o suficientemente preciso, tendo deixado escapar o verdadeiro local onde jaz o príncipe fenício. Uns vão ainda mais longe, afirmando que somente aos escolhidos é permitido enxergar os mistérios existentes por detrás daquelas rochas.
Quem planeja subir ao topo dessa mítica montanha a fim de ver de perto todos os seus enigmas deve ir à Barra da Tijuca e procurar um condomínio no final da rua Sacomã. Lá, fica o início da trilha. O percurso leva cerca de duas horas e meia e exige maior cuidado num trecho íngreme e exposto, próximo ao cume, batizado de carrasqueira. Aos menos experientes, é aconselhável a companhia de um guia.