top of page
marcaindtree.png
marcaindtree_edited.png

GUERREIROS DO GELO: OS INVERNAIS MONTANHISTAS POLONESES

ree

A primeira ascensão do Kangchenjunga durante o inverno, ocorrida em 1986, é considerada uma das conquistas mais significativas da história do montanhismo. Após essa façanha, a forma como os alpinistas olhariam para esse pico remoto e extremamente perigoso, mantido durante décadas intocado nos meses mais frios, fora da temporada normal de escalada no Himalaia, passaria a ser outra. Os limites da capacidade humana em grandes altitudes seriam confirmados e expandidos definitivamente graças a uma expedição de valorosos poloneses, capazes naquele ano de dobrar aquela montanha com recursos escassos, sem carregadores, sem oxigênio suplementar e na época mais desafiadora — como já haviam feito com outros 8.000; o Kangchenjunga era mais um deles; o mais difícil até então. Uma equipe motivada pela experiência, determinação e necessidade de provar que era possível: para eles mesmos. Do notável grupo, aqueles a alcançarem o cume empunhando a bandeira vermelha e branca polonesa seriam dois grandíssimos alpinistas desse país — e, naturalmente, da história. Eles acrescentariam à sua notável lista de empreendimentos mais um feito extraordinário, dessa vez, juntos: Kukuczka e Wielicki. Os maiores, talvez, dentre


OS POLACOS INVERNAIS


ree

O PACTO COM O INVERNO


ree

m meados da década de 1980, as escaladas durante o inverno no Himalaia tornaram-se uma obsessão para os poloneses. Após a escalada do Everest, a maior de todas as montanhas, sem oxigênio suplementar (conseguida por Reinhold Messner e Peter Habeler em 1978), seguida pela ascensão dessa mesma forma do K2 e do Kangchenjunga, respectivamente, a segunda e a terceira maior montanha do planeta, também em 78 e a outra em 79, o novo limite imposto pela natureza nos picos do Himalaia tornara-se um só: vencê-los na pior época de todas!


Se escalar as montanhas do Himalaia quando o clima era mais propício já representava uma ousadia das mais absurdas, fazer isso durante os meses de inverno parecia puramente loucura. Não sabiam nem se era possível. Temperaturas na montanha caindo abaixo de -40°C, ventos catabáticos de até 200 km/h impelindo cada homem para baixo, escassez de oxigênio na zona da morte acima dos 8.000 metros, risco de avalanches e quedas, clima ainda mais imprevisível, maior dificuldade de resgate, enfim, tudo isso era o que estava à espera de qualquer aventureiro que sonhasse apenas pisar naqueles picos ao raiar do inverno.


Pois bem, ainda assim, os corajosos alpinistas poloneses, acostumados a tomar litros e mais litros de vodka, sempre regados a marcas de cigarros do regime comunista, nos bares da cidade de Zapokane, aos pés das montanhas Tatra, para onde rumavam a fim de aprimorar suas técnicas e desafiar o espírito, decidiram provar o quão eram bons escaladores longe de sua terra natal. Queriam pôr o nome da nação polaca no mapa do Himalaia.


A propósito, entre as escarpas dos Tatra, na fronteira da Polônia com a Eslováquia, era possível compreender o quão fisicamente e mentalmente os escaladores polacos eram diferentes e estavam preparados. Desafiados pela História — que ao seu povo, naquelas últimas décadas, infligira inimigos implacáveis: primeiro, a Alemanha nazista, depois, a Rússia stalinista —, naquelas montanhas de clima menos estável do que os Alpes no meio da Europa, mais chuvas e um inverno de condições peculiares que chegava a lembrar os picos do oriente, cada um deles fora forjado utilizando equipamentos rudimentares, alguns, sem barraca, dormindo ao relento com apenas um cobertor e se alimentando de beterrabas. Após esse "treinamento", na década de 70, partiram para seu destino no leste, com os primeiros invernais em montanhas de 7.000 metros (como o Noshaq, 7.492, segundo pico mais alto do Hindu Kush) e as primeiras tentativas de escalar assim um 8.000 — como o Lhotse em 75. Em 1980, os ousados poloneses seguiram para o Everest. Lá, fizeram a primeira ascensão chocante do “Big E” em meio ao inverno: Leszek Cichy e Krzysztof Wielicki. Em 1984, voltaram à cordilheira e subiram o Manaslu: Maciej Berbeka e Ryszard Gajewski. Em 85, venceram o Cho Oyu, Maciej Pawlikowski e Berbeka novamente, e também o Dhaulagiri: com Andrzej Czok e Jerzy Kukuczka (fazendo seu primeiro cume de 8.000 em invernal). Foi quando os poloneses, ao olharem para trás e perceberem tudo o que haviam conseguido, imaginaram chegar a hora de desafiar o imponente monte sagrado, o Kangchenjunga.


A SEQUÊNCIA DE FEITOS DOS POLONESES NAS MAIORES MONTANHAS DA TERRA ERA IMPRESSIONANTE. DOS ANOS 70 AOS 80, ELES SE PRONTIFICARAM A SUBIR UMA APÓS A OUTRA BATENDO RECORDES. SEMPRE POR ROTAS NOVAS. DOMANDO TODAS NO PERÍODO MAIS MORTAL, O INVERNO.


NAS IMAGENS ACIMA, PRIMEIRO, AS MONTANHAS TATRA, REGIÃO ONDE OS INVERNAIS POLONESES SÃO FORJADOS. A SEGUIR, FOTO DE LECH KORNISZEWSKI DA ESCALADA NO MANASLU NO INVERNO DE 1983-84. ABAIXO DA LEGENDA, ALPINISTAS POLONESES OUVEM MENSAGENS DE SEUS FAMILIARES E AMIGOS NO ACAMPAMENTO BASE DO EVEREST NO INVERNO DE 79-80 (FOTO: RYSZARD SZAFIRSKI).

ree

Subir o monte Kangchenjunga, com seus temidos 8.586 metros, representava um grande sonho para todo alpinista; independente da época na qual fosse realizada a empreitada. Ousar escalá-lo durante o inverno parecia algo distante. A maioria das equipes sequer havia considerado tal investida. Na verdade, apenas uma tentativa havia sido feita e acabara em desastre. Chris Chandler e sua esposa, Cherie Bremer-Camp, em 1985, foram vencidos pela montanha, que acabou ceifando a vida de Chandler e deixando escapar por pouco sua mulher e o sherpa que acompanhava ambos. Era um aviso trágico para quem decidisse subi-la no inverno. Exceto para os poloneses, que acumulavam façanhas uma depois da outra. Em especial, no próprio Kangchenjunga: primeira ascensão do cume sul dessa montanha, primeira escalada do cume central e uma nova rota do Yalung Kang ou Kangchenjunga Oeste, a 8.505 m. Só faltava vencê-la totalmente em invernal.


Isolado na fronteira entre o Nepal e o Sikkim, uma região incrustada ao norte da Índia (sendo a mais oriental das montanhas de 8.000 metros), o Kangchenjunga possui uma natureza imprevisível e intolerante. É um monte violentamente frio. Naqueles anos, traduzia-se como um gigante que parecia não poder ser domado “fora da janela”. Ele não daria chance. O risco era — e ainda é — altíssimo!


ree
O Kangchenjunga visto de ângulos diferentes, ao longe e mais próximo, no horizonte de quem toma o caminho da montanha. A transliteração do nome desse pico, como é comum entre os muitos do Himalaia, varia: Kanchinjinga, Khangchendzonga, Kangchenjunga.  Em suma, o termo inicial, "Kang", significa "neve", o do meio, "chen", "tesouro" e o final,  "junga", "cinco". (Fotos: Tara Shankar Snai)
O Kangchenjunga visto de ângulos diferentes, ao longe e mais próximo, no horizonte de quem toma o caminho da montanha. A transliteração do nome desse pico, como é comum entre os muitos do Himalaia, varia: Kanchinjinga, Khangchendzonga, Kangchenjunga. Em suma, o termo inicial, "Kang", significa "neve", o do meio, "chen", "tesouro" e o final, "junga", "cinco". (Fotos: Tara Shankar Snai)

Sendo o pico do Himalaia a receber o título de maior do mundo antes do Everest e do K2 serem descobertos, em meados do século XIX, o Kangchenjunga carrega uma aura sagrada para os habitantes aos seus pés. Na mitologia do povo do Sikkim, essa montanha representa uma divindade guardiã da Terra. Seu nome significa “os Cinco Tesouros da Neve” por possuir, o maciço, cinco cumes aparentes (três deles principais delimitando a fronteira entre o Sikkim e o Nepal; os outros dois ficam inteiramente no território nepalês). Escalar suas paredes é, portanto, considerado um sacrilégio.


Antes de 1975, o Sikkim era uma região autônoma dentro da república da Índia. Era governado pela dinastia Chogyal. Tais governantes não permitiam expedições nas encostas de sua montanha sagrada. O mesmo já não ocorria a oeste, do lado nepalês, mais benevolente (ao que os sikkimeses se opunham veementemente).

Pintura de Hermann Schlagintweit (1855): Kanchinjinga. Por respeito à tradição, os alpinistas não caminham sobre o cume da montanha sagrada.
Pintura de Hermann Schlagintweit (1855): Kanchinjinga. Por respeito à tradição, os alpinistas não caminham sobre o cume da montanha sagrada.

Sendo o Everest conquistado em 1953 e o K2, no ano seguinte, a bola da vez tornou-se, pela ordem natural, o Kangchenjunga. Tentativas de escalá-lo vinham ocorrendo desde 1905 — partindo do Nepal obviamente. Em 1955, os escaladores Joe Brown e George Band, membros de uma expedição britânica liderada por Sir Robert Charles Evans (vice-líder da expedição vitoriosa de 53 ao Everest e que, por 90 metros, devido a um problema no suprimento de oxigênio, não se tornara ao lado de Hillary e Tenzing parte do trio, não o duo, a escalar pela primeira vez o topo do mundo) conseguiram ser os primeiros homens a pisar no cume do Kangchenjunga. Na verdade, não fizeram exatamente isso. Evans decidiu, antes da expedição, ir ao Sikkim para lhes pedir permissão para a empreitada. O acordo feito foi que a expedição poderia prosseguir desde que os alpinistas, ao chegarem a um ponto no qual tivessem certeza de conseguir alcançar o cume, não prosseguiriam mais alto e não profanariam as proximidades do topo da montanha. Por conta disso, cumprindo a promessa, ao chegarem a um metro e meio do cimo, Brown e Band se deram por satisfeitos. Após 75, sem mais a autoridade dos Chogyal, houve uma maior autorização para escalar a montanha pelo seu lado leste. O coronel indiano Prem Chand e o sherpa Nima Dorje foram os primeiros a alcançarem o cume pelo Sikkim. Eles, contudo, também não ousaram pisar em seu topo imaculado.


ree

GEORGE BAND ESCALA O DIFÍCIL TERRENO DO KANGCHENJUNGA EM 1955. FOTO: THE ALPINE CLUB


Uma localização remota, grande dificuldade em organizar a logística para chegar à sua base e escalá-lo, o terreno extremamente hostil, as constantes avalanches e tempestades comuns durante todo o ano em sua encosta, por tudo isso, o Kangchenjunga é considerado pelos mais experientes alpinistas uma das montanhas mais difíceis de ascender — se não for, a par do K2, a mais difícil de todas. Esse pico possui uma das taxas de fatalidade das mais altas dentre todos no Himalaia. Se, no verão, ouvir seu rugido de perto já é amedrontador, no inverno, ele não convida ninguém a pisar em suas cercanias.


MAIS UMA VEZ, PARA O HIMALAIA


No segundo semestre de 1985, se dizendo pronta, a equipe de alpinistas polacos partiu para o 8.000 mais proibido de todos. Estavam decididos a encarar um dos últimos desafios intocados do montanhismo. Alcançar um nível acima nas escaladas invernais. Assim, a expedição organizada pelo Clube de Montanhismo de Gliwice foi entregue ao comando de Andrzej Machnik. Seu planejamento começou ainda em 83. Eles sabiam o tamanho do buraco em que estavam se metendo.


Na foto de membros do Clube de Montanhismo de Gliwice, do qual faziam parte os poloneses imbuídos, a cada temporada, de enfrentar um dos gigantes do Himalaia, à esquerda, na fileira de baixo (olhando para o lado, para, talvez, outra câmera), Andrzej Machnik, o líder da expedição de 86.
Na foto de membros do Clube de Montanhismo de Gliwice, do qual faziam parte os poloneses imbuídos, a cada temporada, de enfrentar um dos gigantes do Himalaia, à esquerda, na fileira de baixo (olhando para o lado, para, talvez, outra câmera), Andrzej Machnik, o líder da expedição de 86.

Considerando que, em face das restrições impostas pelo regime comunista (em vigor na Polônia desde os anos pós Segunda Guerra Mundial), o financiamento para expedições polonesas às montanhas do Himalaia era sempre escasso, como o Kangchenjunga compreendia “apenas” o terceiro maior pico, bem menos desejado do que o K2 e muito menos do que o Everest, os desafios começariam já na hora de conseguir grana para tal investida. Nesse intuito, a equipe tentou firmar uma parceria com escaladores americanos (dois se juntaram ao time) e de outros países como Grã-Bretanha, Alemanha Ocidental e, inclusive, do Brasil: José Luiz Pauletto o primeiro brasileiro a escalar o Denali, em 1984, fez parte dessa expedição (ele chegou a 7.400 metros de altitude no Kangchenjunga). A espinha dorsal do time, todavia, era toda polonesa: quinze alpinistas, todos experientes, a maioria, calejada pelos ventos frios do Himalaia.



O MONTANHISTA BRASILEIRO JOSÉ LUIZ PAULETTO FEZ PARTE DA EXPEDIÇÃO POLONESA AO KANGCHENJUNGA. ELE CHEGOU A 7.400 METROS DE ALTITUDE NAQUELE PICO DURANTE O INVERNO.



Devido à falta de dinheiro, os primeiros problemas surgiram logo no transporte da carga essencial para a expedição da Polônia, na Europa, rumo à Ásia. Partindo de Gdynia, no mar Báltico, o navio que transportava os equipamentos e deveria chegar a Bombaim, na Índia, de onde tudo seria levado para o Nepal, estava quase dois meses atrasado. Com a janela de tempo para a escalada se fechando, a expedição não podia mais aguardar presa num quarto barato de hotel. Eles, então, tomaram uma decisão e se dividiram em dois grupos. O primeiro, formado por alpinistas selecionados, pegou a estrada e seguiu em direção ao norte, ao encontro da montanha, carregando o que havia de comida e equipamento. O restante permaneceu na Índia ao aguardo do restante da carga e planejando conseguir encontrar os demais mais à frente.


Esperando cobrir o déficit que já soava além do previsto, os poloneses do primeiro grupo tomaram dinheiro emprestado com alguns contatos em Kathmandu. De lá, partiram para a aproximação do Kangchenjunga, em uma difícil marcha pelo território do leste do Nepal. Foram dezesseis dias até o assentamento isolado de Ramche, a 4.580 m, e o acampamento base na geleira Yalung, onde estabeleceram seu QG a 5.100 m de altitude na data de 9 de dezembro de 1985. Diante deles, neste ponto e neste dia, eles puderam avistar o Kangchenjunga e seus picos sul, central e norte (com apenas 100 m de diferença entre eles, o pico norte é o mais elevado dos três e onde todos desejam chegar).


Para escalar o pico no inverno que se aproximava, os polacos decidiram por refazer a rota tomada pelos britânicos em 1955 pela face sudoeste. Seguiram, a partir dali, se aclimatando, estabelecendo o caminho com cordas e definindo os locais de acampamentos montanha acima. O objetivo era bem direto: pisar no topo do Kangchenjunga até o final de janeiro. A questão era o caminho para tal.


A ROTA PARA ESCALAR A FACE SUDOESTE DO KANGCHENJUNGA, PELA QUAL A MONTANHA FOI VENCIDA PELA PRIMEIRA VEZ EM 1955 E TAMBÉM NO INVERNO PELOS POLONESES EM 1986.


Sem ajuda dos carregadores sherpas, tudo o que precisava ser levado para o alto tinha que ser conduzido por membros da própria equipe e montado por eles próprios. Em 15 de dezembro logo, eles estabeleceram o primeiro acampamento na encosta íngreme e exigente tecnicamente do Kangchenjunga, a 6.200 m. Em 20 de dezembro, o acampamento 2 foi fincado: estavam a 6.700 m. O progresso, embora nada fácil, foi constante. Os poloneses estavam determinados. Escalada após escalada. Cordada após cordada.


Enquanto isso, o segundo grupo de alpinistas, que havia permanecido em Bombaim devido ao atraso no envio, chegou a Ramser, no caminho para o acampamento base. Eles traziam o restante da carga. De lá, seguiram para a montanha onde se encontraram com o pessoal avançado que já prosseguia sobre as arestas com velocidade e determinação. Com a chegada do Natal, entretanto, aquela maré de sorte mudou. Os ventos mudaram.



ree

O PRESENTE DE NATAL DADO AOS POLONESES PELA MONTANHA FOI UMA CAIXA EMBRULHADA COM NEVASCAS, VENDAVAIS E MAIS FRIO DENTRO (FOTO: ARQUIVO KRZYSZTOF WIELICKI)


Os poloneses foram forjados nas montanhas Tatra utilizando equipamentos rudimentares, alguns, sem barraca para dormir — adormeciam ao relento com apenas um cobertor — e se alimentando de beterrabas. Após esse "treinamento", na década de 70, partiram para o Himalaia, realizando os primeiros invernais em montanhas de 7.000 m e as primeiras tentativas de escalar assim um 8.000. Em 1980, seguiram para o Everest. Depois de domar o "Big E" no inverno, nada podia para-los.

Ao final de dezembro, uma forte tempestade atingiu a região da montanha. Rajadas violentas e neve pesada destruíram partes do campo base. Tendas foram destruídas e os equipamentos, soterrados. A nevasca abrupta bloqueou o progresso até então imparável da expedição polonesa. Foram três dias desenterrando objetos e realocando as barracas. Mas quando o mau tempo cessou, o grupo se moveu rapidamente para recuperar o tempo perdido.


Após o Ano Novo de muito trabalho na montanha — com, obviamente, uma pausa para algumas doses de vodka como alento —, em 2 de janeiro, a expedição estabeleceu o acampamento 3 a 7.250 m de altitude numa formação rochosa proeminente conhecida como "grande plataforma": um importante local de preparação para o grupo avançar para o ataque ao cume. No dia seguinte, eles foram mais alto e montaram o acampamento 4 a 7.750 m, bem aos pés do cume principal. Foi quando os ventos fortes do inverno no Himalaia sopraram novamente sobre o Kangchenjunga. Isso os obrigou a se retirarem para as barracas mais baixas. Todos eles. Até os mais fortes dentre o seleto time daqueles poloneses invernais.


ANDRZEJ CZOK E PRZEMYSLAW PIASECKI A CAMINHO DO ACAMPAMENTO 2 DURANTE A EXPEDIÇÃO POLONESA DE INVERNO DE 1985-86 NO KANGCHENJUNGA (FOTO: ARQUIVO KRZYSZTOF WIELICKI)
ANDRZEJ CZOK E PRZEMYSLAW PIASECKI A CAMINHO DO ACAMPAMENTO 2 DURANTE A EXPEDIÇÃO POLONESA DE INVERNO DE 1985-86 NO KANGCHENJUNGA (FOTO: ARQUIVO KRZYSZTOF WIELICKI)

Nos dias posteriores, o cume do Kangchenjunga ficou totalmente fora da vista dos poloneses. Longe de qualquer alcance. A natureza, impiedosa, revelou sua face. A rota, contudo, havia sido claramente definida. Assim que houve chance, os homens rumaram para cima novamente. Lá, abasteceram os acampamentos mantidos vazios e bem fixados durante o sopro intermitente da montanha. Reconstruíram o necessário e se prepararam para o momento derradeiro de partir rumo ao topo. A investida agora era uma questão de clima, do momento certo e de decidir quem iria.


A HORA H


A esse ponto, os alpinistas do grupo, sempre resilientes, estavam exaustos e, por assim dizer, congelados. Eles, porém, mostravam-se determinados a cumprir o objetivo pelo qual deixaram a distante Polônia e rumaram àquele pico isolado e pavoroso do Himalaia. Estavam mais perto do que nunca disso! Quando a hora da empreitada final se aproximou, se reuniram na tenda do refeitório no campo base e decidiram dividir-se em duas equipes. Uma permaneceria na base. Essa daria todo o apoio necessário à outra: aquela que seguiria rumo ao topo.


CHEGADA A HORA DE RUMAR AO CUME, O GRUPO OPTOU POR DEIXAR A INVESTIDA A CARGO DOS MAIS EXPERIENTES: OS ESCOLHIDOS PARA O TRECHO FINAL TINHAM, TODOS ELES, ALGUM PICO DE 8.000 NAS COSTAS DURANTE O INVERNO OU CONHECIAM - NO CASO DE PIESECK - MUITO BEM AS ENCOSTAS DO KANGCHENJUNGA. (FOTO: ARQUIVO KRZYSZTOF WIELICKI)
CHEGADA A HORA DE RUMAR AO CUME, O GRUPO OPTOU POR DEIXAR A INVESTIDA A CARGO DOS MAIS EXPERIENTES: OS ESCOLHIDOS PARA O TRECHO FINAL TINHAM, TODOS ELES, ALGUM PICO DE 8.000 NAS COSTAS DURANTE O INVERNO OU CONHECIAM - NO CASO DE PIESECK - MUITO BEM AS ENCOSTAS DO KANGCHENJUNGA. (FOTO: ARQUIVO KRZYSZTOF WIELICKI)

Esta equipe avançada era formada por Jerzy Kukuczka, Krzysztof Wielicki, Andrzej Czok e Przemyslaw Piaseck. Este último havia escalado o pico sul do Kangchenjunga em 1984 e, no ano anterior, tentado chegar ao cume principal daquela montanha; todos os demais já haviam pisado em algum cimo de 8.000 no inverno. Eles partiram do acampamento base em 7 de janeiro. Apesar do vento forte e das temperaturas congelantes, progrediram pelas encostas da montanha num ritmo acelerado. Ao longo do caminho, conforme avançavam, devido à força do Kangchenjunga, o tempo todo a lutar contra eles, precisaram  refazer a estrutura de alguns locais de passagem onde fixaram cordas e montaram barracas. No dia 10, todos os quatro chegaram ao acampamento 4: 7.750 metros. Era o último passo antes do ataque final. Mas nem todos pareciam aptos a prosseguir.


Um daqueles homens de ferro, Andrzej Czok, não estava bem. Ao se esforçar demais na subida, Andrzej tossia muito e demonstrava claramente cansaço. Sendo um alpinista experiente, acostumado a já ter superado situações piores nas montanhas, esperava poder descansar e estar pronto, no dia seguinte, para partir. Ao amanhecer de 11 de janeiro de 1986, o barbudo Kukuczka e o bigodudo Wielicki se prepararam para seguir, finalmente, sem novos altos em direção ao sonhado cume. Czok, não havendo melhorado, permaneceu no acampamento com Piaseck. Perto das seis horas da manhã, os dois pretendentes a alcançar o topo rumaram para o alto. As condições eram brutais. O vento soprava, a temperatura girava em torno de -40°C e nenhum dos alpinistas poloneses levava consigo oxigênio suplementar. Embora eles houvessem treinado e se aclimatado para aquele cenário, para aquele momento, tudo era extremamente difícil!


O progresso da dupla destinada a alcançar o topo foi lento. Todavia, constante. Arrastando-se pela neve e adentrando o ar rarefeito e gelado, perderam a sensibilidade das pernas, recuperada aos poucos quando o Sol, lá pelas 10h, deu as caras entre as nuvens. Moviam-se cada um a seu próprio ritmo, sem amarras. Percorreram por horas o trecho final, a parte mais difícil da escalada, pisaram no falso cume, atravessaram a crista exposta e, por fim, no verdadeiro cimo do Kangchenjunga. Às 13h30min, Wielicki foi o primeiro a pisar no topo. Ele aguardou o companheiro por um breve tempo até começar a descer. Cruzou com Kukuczka logo em seguida que, por volta de 14h15, estava de pé sobre a cabeça do titã. Os dois eram os primeiros homens a pisar no cume do Kangchenjunga durante o inverno. Haviam chegado lá sem oxigênio extra, sem a ajuda dos sherpas ou qualquer outro apoio. Sob um céu que se tornara azul com as horas e em meio aos restos deixados por outras expedições que chegaram àquele lugar em uma época menos desafiadora, Wielicki, Kukuczka, os dois exultaram diante do mar de montanhas nevadas do Himalaia.


WIELICKI FOI O PRIMEIRO A ALCANÇAR O TOPO GELADO DO KANGCHENJUNGA NAQUELE INVERNO. (FOTO: ARQUIVO KRZYSZTOF WIELICKI)
WIELICKI FOI O PRIMEIRO A ALCANÇAR O TOPO GELADO DO KANGCHENJUNGA NAQUELE INVERNO. (FOTO: ARQUIVO KRZYSZTOF WIELICKI)

Os dois alpinistas, então, tomaram o caminho de volta ao acampamento 4. Nele, pretendiam passar a noite. Eles, contudo, não sabiam o que havia acontecido por lá. Sem Czok apresentar uma melhora, Pieseck achou por bem, enquanto Kukuczka e Wielicki subiam rumo ao topo, descer com ele para altitudes menos elevadas na esperança de ver o amigo recobrar suas forças. Czok continuava tossindo muito e respirando de maneira pesada. Conforme foram descendo, seu estado só piorou devido ao esforço. Ele conseguiu chegar ao acampamento 3, ajudado por Piaseck e outros da equipe que subiam a montanha. Desse acampamento, uma mensagem foi enviada para o campo base e alguns se prontificaram a subir as encostas levando na mochila tubos de oxigênio para Czok. As condições no Kangchenjunga, entretanto, eram muito difíceis. O rádio mal funcionava, inviabilizando o pedido de resgate externo. No acampamento 3, Czok recebeu todo apoio possível dos companheiros: abrigo, medicamentos e calor. Passaram uma noite amontoados na tenda cozinhando sopas quentes para todos e administrando diuréticos no alpinista combalido. Seu estado, porém, não melhorou. Naquela noite, um dos mais destemidos poloneses invernais não resistiu.


Andrzej Czok já havia chegado a 8.000 metros no K2, escalado o Everest por uma nova rota, Lhotse sem oxigênio suplementar, a Face Oeste do Makalu e, durante o inverno, pisado no topo do Daulaghiri. Conhecido por sua experiência e força silenciosa, seu corpo foi enterrado em uma fenda no gelo próximo ao acampamento 3 — com as honras que puderam ser dadas a tamanha altitude. Sua morte era uma mostra àqueles valentes escaladores vorazes do quão o sucesso e a derrota caminhavam próximos em altitudes extremas. O grupo, após essa dura perda, se juntou à Kukuczka e Wielicki e desceram a montanha. Apesar da morte do companheiro, o objetivo havia sido cumprido. Mais um pico do Himalaia, dessa vez, aquele considerado um dos mais difíceis dentre todos os 8.000, ostentava em seu topo a bandeira e os nomes daqueles polacos forjados pelo frio extremo nas maiores montanhas da Terra.


KUCKUZKA TINHA EM CZOK (SORRIDENTE NESTA FOTO ACIMA, MAIS À DIREITA) UM COMPANHEIRO DE ESCALADA E UM AMIGO. OS DOIS FORMARAM A DUPLA QUE PRIMEIRO ASCENDEU O DHAULAGIRI NO INVERNO DE 1985 (FOTO CENTRAL). A PERDA DE CZOK FORA A TERCEIRA EM EXPEDIÇÕES POLONESAS NAS MONTANHAS DO HIMALAIA. NA PRIMEIRA IMAGEM, OS AUTORES DA FAÇANHA NO KANGCHENJUNGA: WIELICKI E KUKUCZKA (F/ROZMIAR PIERWOTNY).

A escalada do Kangchenjunga em invernal no início do ano de 1986 representou um marco definitivo do quão aquele grupo de escaladores poloneses, já tidos, por muitos, acima do comum, eram, de fato, homens inexpugnáveis. Embora a empreitada tenha tido um custo permanente devido à perda de Czok, ela provou que o espírito humano era capaz de ir mais longe. Alcançar lugares antes tidos até pelos mais valentes como inacessíveis.


Com aquele feito, Jerzy Kukuczka — um dos dois a pôr os pés sobre o cimo nevado do Kangchenjunga naquela ocasião — alcançava sua décima montanha de 8.000 metros. Pioneiro em abrir novas rotas, as quais nenhum outro alpinista havia tentado antes (incluindo a dificílima Face Sul do K2 a qual ele empreendeu em estilo alpino no mesmo ano de 86 após subir o Kangchenjunga; Kukuczka escalou também nesse ano o Manaslu, isto é, três 8.000 em apenas alguns meses — em 85 ele também ascendeu três desses picos contando o inverno e a temporada normal), esse polonês inquieto veio a se tornar o segundo homem a escalar todos os catorze picos de 8.000 metros existentes no planeta: quatro em invernal, três deles sendo o primeiro a fazê-lo dessa forma. Kukuczka veio a falecer na montanha em 89. Uma corda de segunda mão que ele havia levado para o Lhotse se rompeu, causando uma queda mortal (Przemyslaw Piaseck, que estava com ele nessa montanha, abandonou o montanhismo para sempre após o acidente).


Já Krzysztof Wielicki, o outro a colocar a sola das botas sobre o topo do Kangchenjunga no inverno de 86 — feito que o mesmo, poucos anos antes, havia realizado no Everest e no Lhotse (ou seja, o primeiro a fazê-lo em três das quatro maiores montanhas da Terra) — chegaria, adiante, também ao topo de todos os catorze picos de 8.000 metros existentes como fez o companheiro Kukuczka. Nos anos 2000, na busca por novamente tremular a bandeira polonesa no cimo dos maiores picos do planeta durante o inverno, ele organizaria duas expedições de seu país ao K2 e ao Nanga Parbat. Nenhuma delas teve sucesso em chegar ao cume. Em 2013, todavia, o grupo liderado por ele nas encostas do Broad Peak alcançou o topo dessa montanha no início de março, os primeiros alpinistas a fazerem-no em invernal. Eram todos poloneses. Um ano antes, outros dessa nova geração de polacos haviam pisado no cume do Gasherbrum I. Naturalmente, no inverno.


ree


ree
Dentre os muitos feitos de Krzysztof Wielicki, em 1984, ele se tornara o primeiro alpinista a subir e descer um pico de 8.000 m em apenas um dia: em 22 horas, foi e voltou sozinho do topo do Broad Peak (8.051 m). Em 1996, ele escalou solo o Nanga Parbat (8.126 m) pela difícil rota Kinshofer, o que considera sua maior proeza — que ele festeja na primeira  foto acima. Na outra imagem, Jerzy Kukuczka comemora seu 14º pico de 8.000 m após descer o Shishapangma em setembro do ano seguinte após a conquista do Kangchenjunga no inverno (o bolo improvisado é formado por catorze doces, cada um com uma bandeirola com o nome de uma das montanhas). Antes daquela escalada em invernal em 86, em meio à corrida com o italiano Reinhold Messner para ver quem seria o primeiro a alcançar o topo de todos os 8 mil — o polonês ficara em segundo, porém realizou o feito em menos tempo — Jerzy encontrou-se com o grupo em Kathmandu em outubro. Todos estavam a caminho do Kangchenjunga. Ele vinha do Lhotse. Ao invés de permanecer no Nepal, preferiu dar um tempo e foi para casa. Embarcou em um avião e se refugiou em sua cabana de madeira em Istebna, não muito longe de Katowice. Lá, ficou com as crianças e a esposa, Celina. Durante um tempo, se divertiu com as alegrias da vida doméstica. Sua casa transbordava de amigos montanhistas, que vinham comer e beber e compartilhavam histórias de escalada até altas horas. No começo de dezembro, Kukuczka partiu novamente para o Himalaia. Lá, encontrou-se com Wielicki e os outros. Era chegada a hora de encararem mais um, o temido "KANGCH".  §
Dentre os muitos feitos de Krzysztof Wielicki, em 1984, ele se tornara o primeiro alpinista a subir e descer um pico de 8.000 m em apenas um dia: em 22 horas, foi e voltou sozinho do topo do Broad Peak (8.051 m). Em 1996, ele escalou solo o Nanga Parbat (8.126 m) pela difícil rota Kinshofer, o que considera sua maior proeza que ele festeja na primeira foto acima. Na outra imagem, Jerzy Kukuczka comemora seu 14º pico de 8.000 m após descer o Shishapangma em setembro do ano seguinte após a conquista do Kangchenjunga no inverno (o bolo improvisado é formado por catorze doces, cada um com uma bandeirola com o nome de uma das montanhas). Antes daquela escalada em invernal em 86, em meio à corrida com o italiano Reinhold Messner para ver quem seria o primeiro a alcançar o topo de todos os 8 mil o polonês ficara em segundo, porém realizou o feito em menos tempo Jerzy encontrou-se com o grupo em Kathmandu em outubro. Todos estavam a caminho do Kangchenjunga. Ele vinha do Lhotse. Ao invés de permanecer no Nepal, preferiu dar um tempo e foi para casa. Embarcou em um avião e se refugiou em sua cabana de madeira em Istebna, não muito longe de Katowice. Lá, ficou com as crianças e a esposa, Celina. Durante um tempo, se divertiu com as alegrias da vida doméstica. Sua casa transbordava de amigos montanhistas, que vinham comer e beber e compartilhavam histórias de escalada até altas horas. No começo de dezembro, Kukuczka partiu novamente para o Himalaia. Lá, encontrou-se com Wielicki e os outros. Era chegada a hora de encararem mais um, o temido "KANGCH". §

Comentários


Banner (1).png
DSC_0294_edited_edited.jpg

QUEM
ESCREVE

O autor, ALLAN KRONEMBERG,

é jornalista, ex-militar e o criador

da marca NA FRONTEIRA. Desde novo,

Allan é aficionado por histórias

de exploradores, filmes de cowboy

e livros sobre os mais variados

temas e aventuras (com destaque

para as obras de Hemingway,

Jack London, os poemas de Bukowski,

frases de Twain e os contos hiborianos

de Howard - inclua as páginas de

"O tempo e o vento", de Érico Veríssimo,

nessa lista mais as notas pujantes de uma

canção do The Cult). Tornando-se

ele mesmo, pelos anos, um aventureiro,

Kronemberg sempre buscou na

natureza selvagem - e numa garrafa

de whisky, ele diria - a inspiração

para a vida e suas próprias estórias.

Foi dele a ideia de tornar

a NA FRONTEIRA, além de uma

grife de roupas, uma revista sobre

os mais diversos assuntos pertinentes

à rotina e aos gostos dos clássicos

aventureiros; homens e mulheres

com o espírito da tempestade

em seu sangue.

  • Instagram
  • Tópicos
  • Youtube
bottom of page