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DANÇA COM LOBOS: DESCOBRINDO A SI MESMO NA FRONTEIRA

22/02/2018

Vencedor de sete estatuetas, este longa é um clássico de três horas que mistura drama, aventura e faroeste. Para se assistir e refletir.

 

 

Dança com Lobos (Dances with Wolves, em inglês) é um filme norte-americano de 1990 estrelado e dirigido pelo ator Kevin Costner (que fez nele sua estreia como diretor). A obra emplacou sete Oscars de doze indicações, incluindo melhor filme, melhor direção, melhor fotografia e trilha sonora – esta produzida por John Barry e, de fato, uma sinfonia que casa perfeitamente com as paisagens fantásticas do oeste americano, cenário do filme. Foi este, aliás, o western que retomou a estatueta para o gênero, muito famoso nas telas de cinema até o início dos anos 1980, mas que apenas uma vez havia conseguido o prêmio de melhor filme da Academia com Cimarron em 1931 (embora, na realidade, Dança com Lobos seja muito mais um drama passado na época da Guerra de secessão do que um clássico “bang bang”).

[ OBS : Contem spoilers ]

 

 

A HISTÓRIA

 

        Sendo uma adaptação do romance homônimo de Michael Blake escrito em 1988, a obra conta a história de um primeiro-tenente de cavalaria do exército da União (isto é, do norte na Guerra Civil Americana) chamado John J. Dunbar (Kevin Costner). Em 1863, desiludido com a guerra, John é ferido gravemente na perna durante um confronto. Por sorte, enquanto estava praticamente inconsciente num leito do hospital de campanha, os médicos não lhe amputam e ele decide se lançar à morte em combate. Ele rouba um cavalo, Cisco, e percorre o front entre as linhas inimigas numa espécie de ato suicida. Seu gesto desesperado acaba distraindo os confederados e os soldados da União deflagram um ataque repentino com sucesso. Dunbar é condecorado por bravura, recebe cuidados médicos adequados, o valente Cisco como presente e o direito de escolher o posto para o qual deseja se transferir. O tenente decide servir no longínquo Forte Sedgewick, a guarnição mais avançada da tropa, na fronteira.

 

        Para empreender essa jornada, Dunbar se dirige ao Forte Hays, uma localidade já isolada, comandado pelo Major Fambrough. Ele consegue os devidos suprimentos e a autorização do oficial superior para sua viagem – que o toma por “caçador de índios” e desdenha de seu desejo de querer partir para tão longe. Também consegue um guia de nome Timmons que conhece a estrada para Sedgewick. Os dois cruzam por dias a vasta pradaria americana até o forte e o encontram totalmente deserto, sem nenhuma alma viva. Para surpresa de Timmons, Dunbar resolve permanecer lá ainda que sozinho. O guia retorna com suas mulas, porém acaba morto à flechadas no caminho por índios pawnees. O major que concedera a licença para John, sofrendo de loucura, acaba se suicidando e assim ninguém toma conhecimento do que se passa no forte nem de que John está lá.

 

              

        A partir daí Dunbar começa a entrar em um contato mais íntimo com a natureza e vivencia de forma peculiar a solidão da fronteira. Aquele lugar o vai transformando, e ele parece passar ali os melhores dias de sua vida. No forte, vivem somente Dunbar e Cisco, até surgir um lobo com o qual o tenente busca fazer amizade. Ele o apelida de Duas Meias devido às suas patas dianteiras brancas. O oficial relata tudo em seu diário. John é cuidadoso com os mantimentos, pois espera, em breve, a chegada de uma tropa. Ele suspeita que o motivo de o forte estar abandonado fora possivelmente um ataque massivo feito por índios. Ele prepara a guarnição para um eventual confronto e esconde as várias armas que nela permaneceram. É quando, ao retornar de um trivial banho num açude certa tarde, se depara com um índio examinando o forte. O receio inicial de John em se mostrar para o estranho vira um ato enérgico de intimidação ao perceber que ele pretende roubar Cisco. A cena do encontro chega a ser engraçada: Dunbar o assusta com seus berros e por fazê-lo caminhando apressado na direção do índio – totalmente nu.

 

        Logo, outros nativos regressam ao forte na tentativa de roubar o cavalo de John. Eles até o conseguem levar, contudo o fiel Cisco sempre retorna para seu dono. O medo e a curiosidade tomam conta de ambos os lados, tanto do oficial, que percebe não estar sozinho e receia serem aqueles os responsáveis por dizimar o forte, como dos índios, que vêem nele um intruso – a cada vez maior aproximação dos brancos era uma ameaça para sua tribo, os Sioux. Após alguns encontros pouco amigáveis, John decide ir ter com os índios a fim de estabelecer com os mesmos um contato formal. No caminho, ele acaba por se deparar com uma moça branca trajada com vestes indígenas e as mãos repletas de sangue. Ao vê-lo, ela desmaia assustada e John acha por bem levá-la consigo à tribo. Os Sioux o recebem com desprezo e o plano de John, aparentemente, se frustra. Entretanto, diante do ocorrido, os índios resolvem ir até o forasteiro. Dois deles, Vento no Cabelo e Pássaro Esperneante (que já haviam estado no forte, sendo o segundo o primeiro índio que John vira e “Vento”, outro contra quem quase John disparara seu revólver após ser ameaçado), são ordenados a fazerem esse serviço por ordem do chefe Dez Ursos.

 

        Dos seguidos encontros entre eles, surge uma amizade crescente e John acaba sendo convidado a conhecer a tribo. Ele se torna confiável. John se relaciona com De Pé com Punho, a moça branca que ele encontrara ensanguentada e que vivia na tribo desde a infância quando perdera sua família após um ataque dos pawnees e fora adotada por Pássaro Esperneante. Os pensamentos de John acabam por mudar. Ao ter que regressar para o forte, ele já não possui tanto entusiasmo; passa a se ver só ali – o que nunca enfrentara seu coração quando, antes, de fato, não tinha ninguém. A saudade dos novos irmãos de pele vermelha lhe aflige e ele se sente melhor entre aqueles chamados pelos brancos de hostis. Ele vira mais do que um amigo; se torna um deles: Dança com Lobos! SUNKMANITU TANKA OB WACI!

 

 

 

CONSIDERAÇÕES

 

        Há diversas situações nesse interim e no decorrer da história que levam o telespectador a se perguntar sobre as razões que levaram Dunbar a partir para a fronteira, o porquê de ele insistir em permanecer lá e quanto às suas descobertas naquele lugar selvagem, perigoso e libertador. O tenente acaba por combater seus iguais do exército quando, enfim, uma tropa chega ao Forte Sedgewick e o prende achando ser ele um índio. Logo descobrem sua verdadeira origem e o tomam por desertor. Os Sioux o libertam e, ao final, John decide por abandonar a tribo para que seus irmãos não sejam caçados pelo exército por sua causa.

 

        Dunbar não enxerga a maldade professada nas cidades acerca dos nativos, percebendo neles um respeito muito maior pela natureza e pelo ser humano – o que, na guerra e na “civilização dos brancos”, parecia haver se apagado do coração dos homens. Os índios vivem da terra e para a terra. Caçam para sobreviver e aproveitam o máximo que ela pode lhes dar, sem à mesma causar danos. Dunbar define o que vê numa palavra: harmonia!

 

"PENSO QUE VOCÊ TENHA DESCOBERTO

O CAMINHO PARA O VERDADEIRO SER HUMANO."

PÁSSARO ESPERNEANTE PARA DANÇA COM LOBOS

 

 

        Uma das passagens mais emblemáticas do filme pela sua força e extrema realidade, a caçada aos tatanka (como são chamados os bisões – os búfalos americanos – em Iakota, língua nativa dos Sioux), na qual John acaba por se tornar herói ao salvar a vida do jovem Grande Sorriso, desfaz outra cena marcante que evidencia o lado errado do ser humano: dezenas de búfalos são achados mortos na planície, com a carne apodrecendo, à custa somente de suas línguas e do couro.

 

        É importante salientar o conceito da fronteira, tão forte nos americanos, que dizia respeito à parte ocidental da América do Norte onde a civilização terminava. Nessa região, cidades, vilarejos, casas, tudo, após seguidas léguas, sumia, dando lugar ao nada, ao desconhecido; à uma terra inculta, dominada pela natureza. Um lugar a ser desbravado que John previa, um dia, desaparecer – como, de fato, ocorreu, já que hoje todo o território, de leste ao oeste do centro da América do Norte, é ocupado. Outro filme, “Jornada nas estrelas” tem como lema esse conceito. Ele diz, nas aberturas de cada novo lançamento da série: “Espaço. A última fronteira!” dando a ideia de que, lá, desconhecemos o que existe.

 

        A coragem de John em decidir permanecer no forte ainda que só também eleva nosso pensamento. Parece haver em seu coração um total desapego das coisas mundanas, do passado. É como se um novo tempo tivesse chegado e ele enxergasse naquele lugar seu destino (o que, de fato, ocorreu, se observarmos o desenrolar da história a partir dali e os fatos marcantes que a pontuaram, sempre envolvendo a personagem de Dunbar). Muitas vezes, os medos e facilidades nos impedem de buscar nosso verdadeiro propósito. Há algo sobre isso na mensagem deixada por John.

 

        A beleza do filme está também na amizade construída entre o tenente e os Sioux, o que nos faz repensar o ódio e a discriminação muitas vezes aparente em nosso mundo em relação aqueles que parecem diferentes. O carisma de John afeta-os profundamente e todos sentem quando ele decide partir. A cena final, com Vento no Cabelo gritando do alto do penhasco “ser amigo de Dança com Lobos” é tocante! O próprio John e sua esposa, De Pé com Punho, transmitem um sentimento de dor e saudade pela partida, mas, pelo bem dos Sioux, não lhes cabe outra decisão.

 

        Dança com Lobos é um épico que vale ser assistido e discutido. Ele fora uma das fontes de inspiração para eu criar a marca NA FRONTEIRA, diria, por todos estes motivos. Pelo fato de o filme abordar a fronteira americana e esse conceito me chamar bastante a atenção; pela emblemática frase de John ao ter com o Major Fambrough (ao solicitar sua ida para o forte, o tenente diz ao superior: “Eu quero ver a fronteira. Antes que ela se vá.”). Ainda com doze anos, ao assistir o filme pela primeira vez, esta frase já me deixara inquieto, a me perguntar que lugar misterioso seria aquele; o que me levou a fazer uma relação com as montanhas e florestas e a desejar se aventurar por elas. Não menos importante, a busca de John J. Dunbar em encontrar seu propósito me fez pensar qual seria o meu. Devo bastante à essa obra.

 

"SUNKMANITU TANKA OB WACI! SUNKMANITU TANKA OB WACI!

EU SOU VENTO NO CABELO! VOCÊ VÊ QUE SOU SEU AMIGO?

VOCÊ PODE VER QUE PARA SEMPRE VOCÊ SERÁ MEU AMIGO?!

 

 

 

Trailer legendado em português

 

 

 

Leia, em breve, MERU: O CENTRO DO UNIVERSO

NFR

 

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